23 de Maio de 2012

De noite

As mãos dela não dormiam. Gostavam de passear fora do seu sono. Escorregavam pelos lençóis, apaziguavam-se a sentir o macio e o fresco que eles expiravam. Percorriam todo o espaço lenta e levemente, até encontrarem a outra pele, que lhes pertencia também. Demoravam-se então nessa âncora de mãos e de sentidos. Discorriam. Não eram precisos gramática nem vocabulário nestas conversas noturnas; porque mesmo a dormir — só as mãos despertas — continuavam  o diálogo de afetos.

1 de Julho de 2011

3 de Abril de 2011

20 de Março de 2011

Uma menina caminhava com um impermeável amarelo vestido. Com umas sapatilhas de pano, encharcadas. Como o dia. Mas vestia um impermeável, segurava um chapéu de chuva. Caminhava segura, calmamente. Às vezes balançava como a chama de uma vela cansada. Depois recuperava o ritmo, com olhos de convalescente. Os pés encharcados e o impermeável amarelo. Porque só o seu peito que era gaiola precisava de manter seco e quente.

14 de Março de 2011

Depois veio aquele dia em que me olhaste mais dentro. Foi quando me apertaste mais a mão e percebi que te pertencia. Muito antes do primeiro beijo. Um amor que nasceu cheio de medos e intempéries, como nos filmes de Domingo. A minha janela dava para o céu e ouvíamos música na chuva. As notas musicais escorriam pelos vidros e o suor pelos pescoços. 
Separámo-nos no deserto. Um deserto que é dádiva, também. Com possibilidades. Equidistantes os percursos. Dolorosos e esperançados. Caminho surda e calmamente.

13 de Março de 2011

Preciso que me salves dos monstros que dormem aconchegados entre a parede lisa do meu quarto e a mesa de cabeceira, até que eu me deito. Acordam depois para me atormentar, para me lembrar que não estás; que já estive nos teus braços em noites como esta, em que o Inverno teima em ficar, com chuva já chata a bater no telhado. Puxam-me os cabelos e beliscam-me, quando fecho os olhos e te relembro. Riem baixinho aos meus ouvidos. Sarcásticos. E, se durmo, tomam conta dos meus sonhos, para que nem a dormir estejas comigo.

12 de Março de 2011

Porque sim



Pode ser uma resposta tão bonita como outra qualquer. Porque sim. Pode ter grande eloquência, valor literário e simbolismo de sobra. Porque sim. Porque está explícito, reflectido, sem necessidade de mais letras. Porque o mundo gira e nós avançamos, retrocedemos e avançamos, aos pulinhos ou desenfreadamente. Posso perfeitamente sentir o cheiro do verde só porque sim. O sabor do amarelo. A música do cobertor. Porque sim, porque o amor não se explica.

7 de Fevereiro de 2011


Esperava por nós naquele fim de tarde a doce mágoa do que havíamos perdido. A cumplicidade dera lugar a um certo mau estar e as palavras pareciam emaranhadas num novelo de emoções desfeitas. A saudade estava ali, nos nossos olhos atrapalhados. Soubemos sorrir com resquícios de conivência mútua e seguir cada um o seu rumo, com o coração a esmurrar-nos o corpo cobarde. Com a boca a fazer greve no salivar e a garganta seca de tantas palavras ali ancoradas. As pernas tremiam nos passos largos. Só o sorriso permanecia, alheio a tudo, embutido naquele rosto como um papel de embrulho bonito a esconder uma caixa de cartão velha e vazia.


23 de Janeiro de 2011

Das Eleições



Fui votar. Saí do conforto da lareira e lá fui eu, enrolada no cachecol e na coragem. Fui só mostrar que já não acredito na política deste país. Que este sistema de votação por urnas não elege ninguém de consciência. Que ao fim e ao cabo isto não passa de um poder absolutista, porque no fim de contas estamos só a escolher entre duas alternativas que são iguais. E elegemos os grandes empregados deste país como se fossem os patrões. Arrastei a minha constipação para as urnas porque é assustador as pessoas compactuarem e acreditarem neste espectáculo de marionetas tão bem publicitado; porque é a máquina publicitária que escolhe quem ganha. O poder não está com os políticos, não está com o povo, está com os media. Vendem o presidente da república como se fosse um champô: boa cor, bom slogan, boa música e escolham porque faz bem a todos! E o dinheiro dos contribuintes é gasto em propaganda para convencer esses mesmos contribuintes. E o dinheiro dos contribuintes é usado em comemorações do centenário de uma república das bananas. E o dinheiro dos contribuintes é investido na bolsa e ninguém se lembra que podem perdê-lo, perder o nosso dinheiro que não pedimos para ser apostado. Investe-se na bolsa, desinveste-se na Educação. E a partir do momento em que se desinveste na Educação só há duas interpretações: ou o país caiu por terra, ou o país pode gabar-se de ter as pessoas mais instruídas e inteligentes, tanto que a Educação já não é precisa para nada. 
A política ainda não se apercebeu que anda a jogar ao poker mas só tem um par de duques. Parabéns Cavaco.